quarta-feira, 13 de julho de 2011

O problema da pergunta original.

        A vida nos obriga a saber quem somos. Ela grita essa pergunta diante de todas as situações, das mais belas e orgásticas às mais extremas e chorosas. Na maioria das vezes não temos resposta alguma, ou se temos, não sentimos que é uma resposta original. Somos produto do meio, das ideologias, dos dominadores, de tudo. Somos o que a Globo quer que sejamos ou somos o que a Igreja nos ensinou a ser? Sempre fica a dúvida. Mas a vida... Ah, a vida não para. O tempo não para. Nada para. E a pergunta se eterniza: quem é você?
        É engraçado como esse questionamento desgraçado nos faz ficar parados no meio da rua com o carro vindo em nossa direção. A pergunta vem, ora nua, ora fantasiada de distintos pensamentos e emoções. Ela vem quando terminamos um namoro e ficamo sem chão, mas também vem quando nem se quer começamos e pendemos entre dar ou não um sentido àquela transa de primeiro encontro. Ela vem quando um tio morre e você sente que sua hora pode (e está) chegando, mas também vem quando seu sobrinho nasce e você fica no hospital olhando o joelho com cara de bebê ao pensar naquela camisinha furada: "poderia ser o meu". Vem quando você está na frente do computador fazendo inscrição pro vestibular e se vê na corda bamba, arriscando cair entre Administração e Direito (que aliás, são dois cursos excelentes pra quem não sabe o que quer fazer da vida) ou estudar guitarra com o Kiko Loureiro e ter sua super banda de Heavy Metal (quanto a essa sugiro achar um meio termo do gozo, como estudar Literatura e virar escritor). A pergunta é tão impertinente que vem até naquela hora em que você está no limite do esforço para segurar a ejaculação e, após já ter pensado em todas as escalações do Cruzeiro desde 1990, pende entre imaginar sua avó esquartejada e correr o risco de brochar, ou liberar o gozo do leão mostrando que você é o rei da selva e nada mais importa que o seu prazer.
        Eu mesmo me pergunto isso ao ver meus feitos. O foda é que, no meu caso, cada vez mais a resposta "Nada" adapta minha pergunta original; torna-se "O quê é você?", em vez de quem. Entre a pintura, a escrita, a música, fica a certeza de que eu sou tudo isso, mas que nunca serei ótimo em nada. E eu tenho muito disso, desse perfeccionismo, de buscar a plenitude a um nível Platônico. Normalmente, quando eu não alcanço eu desisto. Foi depois de muita porrada na cara que fui aprendendo a persistir. Hoje eu sou os meus esforços; o que não persevera morre. De qualquer forma, eu sei que me sentirei como Werther eternamente, pois "não me agrada lembrar que há tantas outras faculdades descansando em mim, que bem podem enferrujar se não forem usadas, e por hora tenho de ocultar com cuidado. Ah, como isso confrange o coração! E, todavia, ser incompreendido, é esse o destino da gente!"
        Um segredo sobre a pergunta original é não se importar com ela. Ela sempre vai te levar a uma série de coisas que não tem explicação e ultrapassam todo o entendimento: a vida, o amor, deus, chocolate, heineken... Tá, parei. O "se" conjecturando vivências e resultados nos impossibilita da vida. Se fuder a gente se fode desde o início. Só de estar aqui com a certeza da morte já é um puta de um alívio-sacanagem. Então, vamos "carpediar" a vida e ser poesia todo dia: amar, sofrer, ganhar, perder, mudar, ficar um pouco, mudar de novo, se podar, florescer, VIVER!
        Pode ter soado meio autoajuda, mas qualquer coisa em que de alguma forma você se encontre, te proporciona uma vista de fora dos seus olhos, onde podem ser contempladas todas as incoerências da beleza e da feiura do seu ser, da sua alma. Acho que arte é isso, um encontrar-se com o que você é e o que você não é, de tal forma que novas criações surjam no universo. Penso que a pergunta "Quem é você?" não deve ser descartada, mas aplicada à moda da ciência moderna ao cantar-se em propaganda de cerveja: "Experimenta! Experimenta!"
        Aproveite e experimente sempre meu blog, comente, me use. Nessa dança eu aprendo a escrever um pouco melhor e a gente promove esse grande encontro da pluralidade do ser. 
        Afetuosamente nessa semeada escrita...

        Iury Lee